Cogen propõe mais espaço para a cogeração no planejamento energético
Presidente da associação, Newton Duarte destaca a resiliência da fonte para o setor elétrico, defende a inclusão em leilões de potência e pede novo olhar da Petrobras para a competitividade do gás
A cogeração de energia já representa cerca de 10,1% da matriz elétrica brasileira, operando com mais de 22 GW de capacidade instalada e um diferencial de destaque: enquanto no resto do mundo a fonte é 85% baseada em combustíveis fósseis, no Brasil ela é 85% renovável, impulsionada principalmente pelo setor sucroenergético e pela indústria de papel e celulose.
Para debater as perspectivas e os gargalos desse segmento, o programa "Aos Candidatos", promovido pela Brasil Energia, recebeu Newton Duarte, presidente executivo da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen).
Durante a entrevista, Duarte ressaltou o papel estratégico da cogeração como uma verdadeira ferramenta de backup para o país, capaz de garantir resiliência ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em momentos de estresse hídrico e diante da intermitência de fontes como a solar e a eólica.
O executivo defendeu a inclusão das biomassas e do etanol nos Leilões de Reserva de Capacidade de Potência (LRCAP) e apontou o elevado preço do gás natural como o principal entrave para a expansão da modalidade na indústria brasileira, sugerindo negociações com a Petrobras para viabilizar tarifas competitivas que destravem novos projetos.
Segundo Duarte, estudos encomendados pela associação junto à indústria mostram potencial para consumo de mais de 40 milhões de m3/dia de gás natural.
Veja os principais pontos da entrevista:
Eficiência e Renováveis no Topo: A cogeração atinge níveis de eficiência superiores a 90% (contra 40% a 60% das térmicas convencionais). O Brasil se destaca globalmente por ter uma base majoritariamente renovável, liderada pelo uso do bagaço da cana-de-açúcar e resíduos de papel e celulose.
Segurança Hídrica do Sistema: A energia exportada pela cogeração ajuda a preservar cerca de 16 pontos percentuais dos reservatórios das hidrelétricas no Centro-Sul durante os períodos de seca, evitando riscos severos de desabastecimento.
Crítica aos Leilões de Potência: A Cogen lamenta a exclusão da biomassa, do biogás e do etanol do último leilão de reserva de capacidade. A entidade argumenta que essas fontes oferecem potência firme, limpa e com rápida resposta de acionamento a custos inferiores aos do diesel, que acabou sendo contratado a valores altos no certame.
O Desafio do Gás Natural e o Preço Ideal: O custo do gás no Brasil chega a ser três vezes maior do que nos Estados Unidos (atingindo cerca de US$ 15 por milhão de BTU), inviabilizando diversos projetos. Duarte destaca que um valor palatável para destravar o crescimento da cogeração seria em torno de US$ 8 a US$ 8,50 por milhão de BTU. Para viabilizar essa competitividade, a Cogen propõe que a Petrobras crie um modelo de fornecimento específico ("carimbado"), aproveitando o gás excedente do pré-sal.
Data Centers como Nova Fronteira: A explosão na construção de data centers, somada à incapacidade imediata das distribuidoras de entregar altos volumes de energia, está criando um novo mercado para a instalação rápida de módulos de cogeração a gás natural.
Impulso do Biometano: A Lei do Combustível do Futuro, que estabelece um mandato inicial de 1% de biometano a partir de 2026, é vista como um divisor de águas. O aproveitamento de resíduos como a vinhaça permitirá às usinas substituir o diesel de suas frotas e injetar biometano diretamente na rede das distribuidoras.
Recado ao Próximo Governo: Duarte finaliza pedindo que os presidenciáveis não releguem a cogeração a uma terceira prioridade. A recomendação é apostar nas "vocações" energéticas do Brasil (biomassa, etanol e hidroeletricidade) em vez de apenas importar modelos que dependem inteiramente de fontes intermitentes sem o backup adequado.
Assista à entrevista na íntegra aqui.
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